Volume 1: Caçadores – Arco 2: Súdito Fiel

Capítulo 15: Identidade

Soltrone

Tempo demais, já havia passado tempo demais, muitos minutos, horas, dias... eu precisava, meu corpo implorava, meu paladar coçava; eu tinha que ter mais uma caçada.

Um passo de cada vez, quieto como um verdadeiro predador, e a minha presa estava pronta para o abate, presa e acorrentada.

— Barganhar?

Com sua distração, o momento tinha se tornado perfeito. Com as minhas presas prontas, passei pelo Nullu e mordi entre o ombro e o pescoço do prato principal.

— Porra! Mas que merda é essa?!

O grito de dor, as lágrimas que começavam a aparecer em seu rosto, o medo da morte. Talvez fosse minha fome gigante, mas todo aquele sentimento, deixou o sangue ainda mais saboroso.

Com um rápido chute em minha barriga, aquele Nullu conseguiu destruir minha refeição.

— Que porra é essa Soltrone?! — enfurecido gritou.

— Aí, Akiris, desse jeito acho que ele vai acabar morrendo. — Karla informou agachando próximo da presa.

Mais uma vez outro grave erro, não fiz da minha caçada proveitosa...

 — Estanca o sangramento dele até o Davie chegar. — Nullu apontou para um pedaço de roupa do acorrentado.

— Por que me impediu? — questionei ao aproveitar os resto do sangue em meu rosto.

— Viemos encontrar ele, não mata-lo!

— Uma presa é uma presa, nada mais.

O Nullu se virou para o lado e sentou próximo a beirada do telhado.

— Relaxa, Querubim. Pra mim, você foi o herói do dia.

Com Karla terminando de reparar meu desperdício, ele finalmente começou a tagarelar.

— Por favor me desculpa, eu nã... não... não tenho o dinheiro...

Com seu choro ainda mais forte, o seu medo cresceu tanto que seu cheiro invadiu minhas narinas... queria mais um pedaço...

— Não queremos seu dinheiro, Sally.

— Não?!

— Não, Karlamitas. Não queremos. 

— Então... para quê vieram?

— Immersus Inanis.

Quando o Nullu respondeu, para minha infelicidade, seu medo quase desapareceu e algo diferente tomou o lugar.

— Desculpa, eu não posso te ajudar. — respondeu desviando o olhar.

— Dominus que nos enviou Sally, ent...

— Eu não tenho como te ajudar! — gritou com seu rosto virado para o piso.

— ... Elabore.

— Eu não sou o Sally.

— Ótimo, nanico, mais um maluco pra gente lidar. — Karla indignada bateu seus braços e se afastou.

— Então, eu posso terminar. — animado comecei a caminhar.

O Nullu outra vez tentava me impedir, levantou sua mão em minha direção pedindo pra mim parar ali mesmo.

— Como eu disse, elabore. — após sua ordem, escolheu recolher suas correntes de volta.

— Eu não sou o Sally, então não tenho como te entregar a Inanis... — a presa dizia ainda sentada sobre o solo.

— Desembucha logo encapuzado. — Karla já impaciente sacou sua espécie de arco.

— Mas... eu posso levar vocês até o verdadeiro Sally. — acuado, terminou ao se sentar.

Enquanto a conversa acontecia, alguns barulhos estranhos começaram nas ruas. Um fedor de lama aparecia junto a algo crescendo no solo.  

Karla saiu de perto e se aproximou da beirada do outro lado, depois, começou a acenar para baixo.

Na frente dela crescia uma grande torre de barro com Davie e aquele moleque em cima. 

— Esse é o Sally? — Davie perguntou ao ajudar o Wally a descer.

— O próprio, verdinho... quer dizer, eu acho. — Karla respondia Davie enquanto acariciava sua arma.

— Por que você explodiu a biblioteca?... — com seus olhos ferozes brilhando em Essência, perguntou ao homem.

— Eu... o Sally, imaginava que viriam atrás del... de mim, no mesmo instante que me vissem. A bomba era para atrasá-los...

— O verdadeiro? — o brilho cessou.

— Esse lunático disse que ele não é o Sally, mente igual um vendedor barato.

Agora com tantas pessoas em volta dele, tinha ficado impossível saciar minha fome...

— Embora ele afirme isso, as características batem perfeitamente. — Nullu afirmou olhando Sally de cima a baixo.

— Eu não teria tanta certeza.

Após discordar, Davie se aproximou ainda mais do homem abatido, parecia procurar algo pelas suas roupas e pele. Cabelo, pescoço, braços e finalmente, os pulsos.

— O que aconteceu com ela? — perguntou mostrando a Sally seu próprio pulso direito.

— Eu não estou mentindo. — disse o homem desviando o olhar para a direita.

Todos os outros saíram de seus postos e se aproximaram de Davie.

— O que foi, verdinho?

— Isso é estranho, pela sua reação... ele está falando mesmo a verdade.

— Você possui um irmão gêmeo? — Nullu perguntou.

— Não, é mais complicado do que isso. Apenas ele pode explicar direito.

— Como você sabe que ele está falando a verdade? — o garoto com odor de tristeza questionou.

— Wally, os marcados não possuem esse nome sem motivo, eles carregam em seus corpos uma marca muito semelhante ao símbolo dos caçadores.

— Beleza, mas e agora? Se temos dois Sallys, vamos chamar esse daí do que? — Karla com uma mão na cintura encarava o homem.

— Podem me chamar de Billy... — Sally saciou sua dúvida enquanto desviava seus olhos de Karla.

— Certo, Billy. Você vai nos levar até o Sally verdadeiro? — Davie aguardava uma resposta.

O homem abaixou sua cabeça, levantou seu braço direito e apertou seu pulso.

— Posso perguntar por que Dominus quer a Inanis?

— Você precisará perguntar isso a ele você mesmo. — Nullu já voltando para a borda respondeu a presa.

— Entendo...

Aquele homem acabado, tirou seus óculos do rosto e limpou seus vidros. Colocando eles outra vez, encarou cada um de nós e solicitou:

— Vamos precisar de uma carroça coberta.

— Wally e eu trouxemos a carruagem.

Com o Nullu prendendo uma das suas correntes na beirada, logo ele se jogou lá para baixo. Karla não demorou e foi logo depois, sobrando apenas nós quatro no telhado.

— Prefere descer com Soltrone? — Davie já em cima do seu poste de barro apontou para mim.

Em seguida, Billy caminhou de um jeito estranhamente rápido até os outros dois, e então desceram junto a presa. Apenas eu restava naquele piso ensanguentado. 

Olhando outra vez para aquela pequena poça abaixo dos meus pés, um detalhe veio em minha mente. Seu sangue não tinha textura, parecia mais uma água avermelhada do que sangue de verdade.

Um pequeno vapor saía lentamente de seu corpo, passando meus dedos sobre a poça e os encontrando com minha boca, nenhum gosto pude sentir.

— É o mesmo sangue?

Com o resto em meu dedo passando a se tornar vapor, levantei minhas asas aos céus e em segundos, cheguei ao chão. Irritado e com fome, entrei de uma vez no interior da carruagem.

Com o Nullu sentado ao lado de Billy, Karla no outro acento, e Davie e Wally lá fora, o único lugar que sobrou foi o chão.

Após os cavalos começarem a cavalgar, o aguardado interrogatório começou.

— Então me diga, quem está procurando você, Sall... Billy.

De primeiro momento sua resposta foi o silêncio, ele apertava firme seu pulso enquanto olhava fixamente para uma das janelas.

— ... Os carrascos...

Aquilo foi instintivo, não consegui reparar no que estava fazendo. No mesmo ato de piscar meus olhos, a ponta da minha asa já estava na beira do pescoço do homem.

— O que é agora, Solt...

— Por que a merda dos carrascos estão atrás de você?!

Não estava em perigo ou muito menos próximo do fim da caçada, ainda assim, meu medo havia tomado conta.

— Calma! Eu posso explicar... — com as mãos para cima ele tentava me acalmar.

Ao aproximar ainda mais minha asa e observar seus olhos se fecharem com força, junto veio a primeira gota de sangue escorrendo pelo seu pescoço.

— Se acalma, Querubim! — Karla gritou me puxando para perto.

— Para começo de conversa, os carrascos não são apenas um conto para assustar crianças? — Nullu inclinando seu corpo para frente e juntando suas mãos acima do joelho esperava uma resposta.

— Não... eles são bem reais. — Billy respondeu ofegante se ajeitando lentamente no banco enquanto me encarava sem piscar. 

— São como mensageiros da morte, eles aparecem do nada, não falam uma palavra e apontam para o que querem.

— Apontam? — Karla curiosa perguntou ao pressionar ainda mais minhas asas.

— Sim, caso seja um objeto, entregue, se mandarem ficar quieto, apenas fique calado, mas... se apontarem para você... — suas pernas imóveis começaram a tremer.

— A sua vida é o que eles desejam.

— Ele está certo. — com Karla afrouxando me soltei de seus braços.

— Como assim? Explica direito! — incomodada ela bateu em minha cabeça.

— Os carrascos são reais e tudo o que ele disse é verdade.

— Como você tem tanta certeza? — Nullu perguntou ainda sem tirar seu foco do homem. 

— Porque eu fui criado como um carrasco.

— Não... não, não, não, NÃO! Me desculpa, eu sinto muito! — Billy com as mãos na cabeça começava a berrar igual um recém nascido.

Enquanto o homem mantinha a cabeça baixa e chorava fedendo a puro medo, o Nullu se virou para mim e fez com sua mão gestos para eu continuar minha explicação.

— Eles são assassinos muito bem preparados, cada um deles porta um manto dourado escuro com um capuz em suas cabeças.

— Alguma característica mais marcante além da roupa? — Karla se apoiando em meu cabelo tentava acabar com sua curiosidade.

— Enquanto estiverem com capuz, os seus rostos serão impossíveis de se enxergar. Em volta de seus pescoços estará gravado o nome das suas últimas vítimas, e em seus braços pinos de ferro do tamanho de penas, todos fincados em suas carnes. — recolhendo as minhas asas sentei novamente.

— Beleza, Querubim, mas então... por que você não tem nada disso? — Karla questionava ao cutucar um dos meus braços.

— Sem os pinos você não se torna um carrasco.

— Responda a pergunta, Soltrone.

Quanto mais eu falava, mais lembranças que eu não gostaria de recordar voltavam a minha cabeça.

— Quando você é um carrasco, a pena, a culpa e a dor é tudo o que você se torna. Quando você mata, os nomes te enforcam. Quando você luta, os pinos afundam. Não é o tipo de poder que eu precise.

— Mentiroso.

Ele tinha razão... estava mentindo para mim mesmo outra vez.

Diante daquela ilha fora de Valíria, não se existia vida. Quando se era um carrasco, você se tornava um executor, um Súdito da própria morte.

Quando os pinos alcançam a carne e o capuz era levantado, o você, desaparecia. Tudo o que passava a importar era os carrascos.

Toda, toda santa vez, quando aquele sino tocava, o chamado para a nova caça havia sido realizado.

Todos eles se reunião no centro da ilha onde ficava o enorme objeto que nós chamava, eram tantos carrascos que o lugar parecia ter sido tomado pelo dourado. Não eram pessoas, mas, sim mais de cem soldados firmes e prontos para as próximas vidas ceifarem.

Por trás daqueles homens, uma única pessoa comandava tudo. Cabelos loiros que batiam em seus ombros, nomes em seu pescoço, pinos em seus braços e um olhar afiado de serpente que revelava uma Genasis de Espírito.

O silêncio que dominava por todo o lugar que ela passava era impressionante. 

Com uma camisa branca esbanjando um grande decote e shorts acima do joelho, ela manipulava suas presas mais imbecis.

Estampado nas costas do seu manto dourado, um olho fincado em uma cruz feita de espadas. Um símbolo que representava o verdadeiro fim da caçada. 

— O dia finalmente chegou! — ela gritava com seu olhar afiado.

— Hoje, começa um novo estágio nos carrascos, não ceifaremos mais vidas que beneficiam a nobres de merda! — com suas mãos atrás de suas costas, a líder gritava ao luar.

— Quando nos infiltrarmos nos caçadores, descobriremos o segredo do lorde deles! Assim, finalmente, a aurora dourada chegará para nós! — com sua mão direita para o ar ela terminou o seu breve anúncio bagunçado em minhas memórias.

Com toda a gritaria, comecei a me dirigir ao local combinado com Selina. Uma pequena cabana perto da costa da ilha.

Caminhando descalço pela areia, a brisa e a lua me guiaram até o meu destino. De frente para a cabana, percebi as velas acesas, então, parei e bati em sua porta.

— Entre. — ouvi uma voz suave ordenar.

Abrindo a porta, lá estava a imponente líder do grupo de guerreiros mais fortes daquele lado do mar.

Ela tirou seu manto, dobrou, e o deixou ao lado de um pequeno balcão. Caminhou em minha direção e estendeu sua mão esquerda ao meu encontro.

— Você está pronto, pequeno? — perguntou com seus olhos fixados nos meus, enquanto fechava a porta atrás de mim. 

Não a respondi, apenas silêncio foi o que ela recebeu.

— Você sabe o que precisa fazer não é? — dando as costas pra mim, ela esperava minha confirmação. 

— Descobrir o que é Dominus.

Selina sentou sobre uma cadeira velha, cruzou suas pernas, e virou seus olhos para a lua que iluminava o quarto pela janela.

— Tenho certeza que após você descobrir o que tanto quer, finalmente se juntará a mim. — esperançosa, ela passava a mão sobre os pinos de seus braços.

Outra vez, um silêncio tomou toda aquela cabana.

— Você voltará, mais cedo ou mais tarde. Sabe o porquê?... Porque você é o meu pequeno Querubim.

— Querubim!! — senti Karla puxando uma de minhas asas.

Voltando a realidade, encontrei todos aguardando minhas respostas.

— Não me tornei um carrasco... porque... não queria ser controlado.

Akiris se manteve igual, Karla aparentava satisfeita e o Billy, terminava de chorar aos poucos.

— Quão forte é um carrasco? — Nullu questionou voltando a uma postura reta.

— Dizem que apenas um pequeno pelotão de dez membros pode derrotar um reino inteiro. — Karla respondeu ao Nullu.

— Apenas os mais fortes conseguem. — corrigi Karla puxando de volta minha asa.

— O que raios você fez chorão?

— Eu... eu... só existo a cerca de dez anos. Não sei ao certo o que eles querem com Sally. — respondeu a criança em corpo de homem.

— Dez anos?! — difícil não enxergar a surpresa no rosto de Akiris.

— Sim... mas... não acho que seja tão impressionante... como um Nullu que sabe arcanismo. — soluçava enquanto limpava o resto de suas lágrimas. 

Akiris não parecia querer continuar a conversa, se virou para a janela e lá ficou. Karla aparentava querer muito mais informações dos carrascos, sentia ela cutucando minhas asas com um dos seus pés.

— Beleza, Querubim, mas e o líder? Quem é?

— Não quero falar sobre ela. — virava minha cabeça para uma das janelas.

— Uma mulher é a líder dos carrascos?! Desembucha! Bora.

Realmente ela era diferente, somente aqueles que pagavam pelos nomes e se mostravam dignos dos pinos, conseguiam se manterem iguais com os capuzes. Embora fossem mais de cem soldados, ela foi a única que conseguiu alcançar tal nível. 

Eu tinha a resposta que Karla procurava, mas continuei em silêncio observando a janela. Não tinha vontade alguma de lembrar mais ainda dos carrascos, principalmente dela. 

Encarando a janela, meu temor enxerguei. Um vulto rápido passou próximo a carruagem. Meus ouvidos escutavam passos suaves quase totalmente silenciosos, junto a eles chegou o fedor de sangue e desejo de carne fatiada. 

Foi quando os cavalos pararam de repente junto da carruagem que os fios das minhas asas se arrepiaram. 

Nada, não escutava nada lá fora, aquele silêncio perturbador martelava minha cabeça como uma bigorna.

Levantei e fui em direção a Karla, coloquei meu joelho sobre o banco e levantei minha mão direita para a madeira.

Aumentando uma de minhas unhas até se formarem garras, enfiei meu dedo pela carruagem e rasguei um pequeno buraco para encaixar meus olhos. 

Olhando o lado de fora, enxerguei Davie com um arco apontado para um grupo em frente a carruagem... homens de capuzes e mantos dourado escuro... os carrascos haviam chegado. 

 

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