Volume 1
Capítulo 15:
No quarto escuro do hospital, Kaito repousava medicado. A porta se abriu devagar, e a luz do corredor invadiu o cômodo, um fio dourado que cortava a escuridão e tocava o rosto do homem na cama.
Os olhos piscaram, ainda pesados, e a silhueta na entrada demorou um instante para ganhar forma. A luz atrás dela era como um halo divino.
Mas ele reconheceu antes que pudesse enxergá-la por completo, afinal, era o seu anjo pessoal.
— Filha… — As palavras escaparam da sua boca, e ele tentou se levantar com uma pressa incompatível com a condição do corpo.
— Pai! — Miku atravessou o quarto e o segurou antes que caísse. Os braços ao redor dele, a cabeça contra seu peito. — Suas cartas, eles não as deixavam chegar até mim. Desculpa, desculpa por não ter respondido!
— Não tem problema. — Kaito fechou os olhos e a segurou com o pouco que tinha. — Estamos juntos de novo, e a partir de agora, não precisaremos mais de cartas.
Okita observava a cena na porta. Pela primeira vez em muito tempo, um sorriso se formou em seu rosto. Era pequeno, quase imperceptível, mas estava lá.
Foi com aquela cena que algo mudou dentro dele — seu coração frio bombeava agora um sangue mais caloroso. Havia vencido muitas lutas, mas nenhuma havia deixado algo assim para trás.
Talvez porque, pela primeira vez, não havia lutado para si.
Em silêncio, virou as costas e partiu.
Ao cruzar o corredor em direção à saída, encontrou o mestre encostado na parede. Os braços cruzados, uma expressão serena.
— Para onde está indo? — perguntou Kondo, entrando na frente do aluno.
— De volta para a prisão. Agora tenho ainda mais meses para cumprir.
Kondo respirou fundo, se ajoelhou e pôs as mãos nos ombros do garoto. Ao falar, olhou diretamente nos olhos dele.
— Eu soube que você escapou, então fui descobrir o motivo. Cheguei aqui antes de você, e conversei com Kaito. — Ele fez uma pausa. — Veja, se Deus existe, então ele te utilizou como instrumento para trazer castigo a pessoas más. Se não existe, cabe a nós, mundanos, exercer a justiça.
Okita ouvia atentamente.
— As pessoas que você matou hoje eram criminosas. Por mais que alguns argumentem que não cabe ao mesmo homem ser juiz e executor, a história nos ensina que antes da balança, havia a espada.
O garoto absorvia as palavras, e não recuava perante elas, pelo contrário, as abraçava.
— Eu disse a você que não cabe ao forte decidir quem morre, mas ao justo. — Kondo fez outra pausa. — Hoje, você não foi forte. Foi justo.
Kondo se levantou antes de continuar.
— Você tirou a vida de três pessoas inocentes, e isso não pode ser desfeito. Hoje, porém, devolveu a vida a outras três. Esse é o seu primeiro passo no caminho do bem e da justiça.
Com a mão enorme e um sorriso no rosto, o mestre bagunçou o cabelo do aluno.
— Vamos para casa, Okita. Você precisa de um bom banho.
Sete anos se passaram desde aquela noite.
Okita não era mais aquele garoto de nove anos, ele não carregava somente o peso de um homem em suas costas na neve, mas o de toda uma cidade.
Ainda assim, algumas coisas não mudavam com o tempo — a forma como segurava a katana, a calma nos olhos, a certeza de vitória.
Na penumbra do escritório, os combatentes trocavam golpes devastadores com suas espadas.
A espada de Galahad abriu o ar na diagonal, ela carregava consigo a intenção de finalizar aquela luta. Porém, Okita não foi ao encontro da lâmina. Redirecionou o fio da lâmina inimiga com um movimento fluido.
Galahad não deixou aquilo passar.
"Por que mudou de estratégia?" pensou o cavaleiro, enquanto desviava dos golpes com a leveza de uma folha.
Ele avançou novamente, com uma sequência curta e rápida. Okita desviou o primeiro, redirecionou o segundo, e recuou meio passo para deixar o terceiro encontrar o nada. De novo, nenhum contato direto entre as lâminas.
"Percebo, está poupando a katana. O material é inferior, assim ele é capaz de evitar o choque direto e o desgaste." Enquanto processava aquilo, se reposicionou no ambiente. "Desse jeito não chegarei a lugar algum, devo criar uma abertura."
Na investida seguinte, forçou um corte mais fechado para reduzir o espaço de manobra do inimigo. O samurai desviou, mas as espadas se tocaram brevemente.
Foi o suficiente.
Uma descarga elétrica percorreu a lâmina de Okita em um clarão bizâncio, proveniente da espada do cavaleiro. A única possibilidade de recuo era se desfazer da katana, então ele tomou sua decisão, e abraçou o choque.
"Isso vai doer." Foi seu único pensamento.
A fração de segundo em que seu corpo foi paralisado, era o que Galahad precisava. Seu punho atravessou o ar e atingiu o centro do peito com força. O choque se espalhou por todo o escritório e despedaçou as janelas.
O corpo de Okita afundou contra o chão, e o chão não aguentou. O concreto cedeu em camadas, e os dois caíram juntos, atravessando diversos andares até o estacionamento no subsolo.
Quando a poeira baixou, o estacionamento foi revelado. Pilastras enfileiradas, teto baixo e rachaduras no concreto. Galahad olhou para baixo, e Okita já não estava mais lá.
O cavaleiro vasculhou o local até encontrar o samurai de pé, com um sorriso de canto.
— O que é tão engraçado? — perguntou Galahad.
— Você nos trouxe até o meu domínio. — respondeu o samurai, com um passo para trás.
— Do que está falando?
— Espere e verá.
Sem mais palavras trocadas, Okita recuou em direção às sombras atrás de si. Mesmo na escuridão, Galahad era capaz de ver os carros estacionados ao redor, as pilastras, o metal que captava o pouco de luz das lâmpadas.
Mesmo em meio a tudo isso, Okita simplesmente desapareceu nas sombras. Não havia uma forma de explicar. O cavaleiro piscou, e o samurai já não estava mais lá. Sem silhueta, sem contorno. A escuridão o abraçou como se fizesse parte dela. Foi assim que Tezuka finalmente revelou seu estilo:
Tennen Rishin-ryū: Príncipe das Sombras
O primeiro golpe chegou pela esquerda. Galahad bloqueou e imediatamente se virou naquela direção — não havia nada além das sombras. O segundo veio de frente, quando esperava por outro lateral.
"De onde ele está vindo?"
Os golpes continuavam a vir, sem padrão ou direção. O cavaleiro bloqueava o que podia e absorvia o que não podia. A cada troca, o espaço ao redor parecia se fechar, a escuridão desejava devorá-lo.
"Não consigo prever seus golpes, sua presença desapareceu totalmente. É como lutar contra a escuridão, e estou cercado por ela."
Foi a sensação de estar encurralado que o levou a tomar uma decisão drástica. Cravou a Zweihander no chão. O cristal bizâncio pulsou algumas vezes antes de descarregar uma rajada poderosa em todas as direções.
O chão, o teto e principalmente as pilastras se racharam. O concreto começou a ranger, era o prenúncio da ruína.
Das sombras, Okita emergiu com o semblante de sempre. Os dois se olharam por um instante, o prédio gemia ao redor deles, com pedaços do teto já a ceder.
— Você mentiu, não foi? — questionou Galahad.
— Menti?
— Durante toda a luta, você esteve se segurando.
— Me pegou. — Okita levantou ambas as mãos. — Me desculpe, é um péssimo hábito. Mas, também sou capaz de dizer que você não está em sua melhor forma.
— Então o que acha de adiarmos esse duelo?
— Acho que seria benéfico para ambos os lados.
Os dois sorriram. Era um acordo firmado sem papel ou testemunha.
Galahad recuou e correu na direção contrária. Okita decidiu não persegui-lo. Os dois serpenteavam entre as pilastras a desabar, esquivando-se dos blocos de concreto. O teto cedeu em ondas, cada seção puxava a próxima para baixo, até finalmente não sobrar nada.
Galahad foi o primeiro a sair, o ar puro da avenida adentrou seus pulmões. Alguns segundos depois, o prédio terminou de desabar, uma nuvem de poeira engoliu a entrada por onde Okita saiu.
O cavaleiro ficou parado por um momento, a Zweihander na mão, a respiração pesada. O corpo repleto de cortes, encharcado com o próprio sangue.
Ele sorriu, pois sabia que havia sido derrotado.
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