Volume 2
Capítulo 14: Tinta, Papel e Caneta
Havia-se passado algumas horas desde que eu havia me encontrado com Ben. Aquelas suas palavras beiravam entre a sanidade e a loucura. Ao mesmo tempo que queria acreditar que tudo aquilo que ele dizia não passava de um grande exagero de sua parte, não podia deixar de enxergar a verdade em em suas palavras — pois, havia visto com meus próprios olhos
— Você precisa estar sempre de olhos atentos. Isso é, se você quer sobreviver aqui. — Revelou, Ben
— Não pode ser tão mal assim. Afinal, aqui existe alguma segurança não?
— Depende do que você quer dizer com 'segurança'. Há guardas e heróis aqui, mas eles estão doentes assim como o povo
Se alguém escutasse o que Ben estava dizendo, provavelmente pensaria que ele nutria algum ódio pela cidade. No entanto, mesmo que suas palavras dessem a entender isso a primeira vista, eu podia sentir que era justamente o contrário. Ele falava das injustiças e dos problemas de Ur como se sentisse em sua própria pele
— Você diz isso, mas você me parece um homem justo Ben
—...Hã? Haha! Então é isso que você acredita? Isso me deixa feliz obrigado
Ben mexia em sua bebida de um lado para o outro. Ele olhava para o vinho como se viajasse por um segundo em suas memórias
Ele parecia estar genuinamente contente, já que não conseguia esconder seu sorriso
— Então eu consegui... não é?
Voltando para o presente, Ben bebeu o que sobrou de sua bebida em um único gole. Ele bufou como se estivesse satisfeito e depois de enxugar seus lábios com o seu braço, ele voltou a se dirigir para mim.
— Acredito que você vai precisar de uma estadia, não é? Eu conheço uma pessoa aqui em Ur que tem um lugar muito bom para deitar a cabeça
— Ah, isso seria muito bom! É... muito obrigado Ben!
— Não é nada demais! Acredito que devemos ajudar nossos amigos
Ben me conhecera apenas algumas horas atrás, mas já me enxergava dessa maneira. Realmente, existem algumas pessoas como ele que conseguem se aproximar das pessoas bem mais rápido
Por mais que não podia dizer claramente que concordava com a ideia de Ben, ainda sim, também não podia dizer que não
— No entanto, eu não poderei te levar até o local. Infelizmente, eu tenho coisas a tratar... mas, eu irei escrever o endereço junto de uma carta, assim você não irá ter problemas para achar ela
Rapidamente, Ben abriu sua bolsa que ele carregava consigo e de dentro dela ele tirou uma caneta tinteiro e tinta para escrever a carta e o endereço
Ele também pegou papel e depois de melar a ponta da caneta sobre a tinta escura, começou a esfregar a caneta sobre a superfície da folha
Meus olhos deixaram de observar o papel e se voltaram ao homem que escrevia sobre a folha. Ben estava sério, mas não de uma maneira assustadora. Todo aquele processo que ele havia feito, foi de uma maneira tão natural que dava a entender que ele já estava acostumado a fazer aquilo. Como se ele sempre fizesse da mesma forma — vez por vez
Talvez minha curiosidade somada a minha admiração tenha me feito perguntar
— Você é um escritor?
— Hã?! Não. Por quê? — Perguntou, Ben. Por mais que me respondesse, ele continuava seu trabalho. Ben não tirou o olho do papel em nenhum momento
— Você parece feliz escrevendo. Aliás, por que diabos alguém teria tinta, papel e caneta consigo se não fosse um escritor?
— Hehe, talvez seja estranho mesmo...
Eu pensei que Ben apenas ignoraria minha pergunta. Mas, depois de alguns poucos segundos, ele disse:
— Acho que eu apenas gosto de escrever cartas
— Sério?
— Sim. Não é emocionante imaginar como a pessoa para quem você está escrevendo vai reagir quando ler?
Suas palavras eram dificéis de correlacionar, entretanto, antes que eu pudesse fazer mais alguma pergunta, Ben pareceu finalmente deixar de mover sua mão
— Está feito!
— Oh...
Eu nem havia notado. Como meu foco na carta havia se perdido, nem tinha percebido que Ben já tinha acabado. Ele realmente era muito rápido
Havia dois papéis em cima da mesa de madeira: um menor e um maior. Ben pegou o menor deles com cuidado, já que a tinta ainda parecia estar fresca. Provavelmente foi a última que ele escreveu
— Esse é o endereço. Tenha cuidado para não borrar, por favor
Segurando na ponta do papel até que tivesse certeza que a tinta secaria, observei Ben envelopando a carta que ele havia havia escrito primeiro. Ele fez isso habilmente, o que me impressionou mais uma vez
— Essa é a carta que você deve entregar a recepcionista da pousada. Diga que foi Ben que te mandou. Caso ela não acredite, apenas peça pra ela ler o conteúdo. Ela vai saber que fui eu quando ler
— Certo, entendi
Ben parecia ansioso para acabar e sair dali. Ele jogou o pagamento pela nossa refeição em cima da mesa, pegou sua mochila e saiu velozmente pela porta do bar. Eu que estava um pouco intrigado pela sua reação decidi fazer o mesmo
Não apenas ansioso, ele parecia preocupado. No entanto, como se lembrasse de minha presença. Ben se voltou a mim com um timido sorriso
— Perdão por não poder te levar até lá. Eu realmente gostaria, mas se eu me atrasar meu patrão vai me matar
— Ah, não se preocupe... você já fez muito por mim. Obrigado e boa sorte no trabalho
— [...]
Ben pareceu se surpreender por um segundo, mas recuperando a compostura, ele apenas virou-se e correu para onde quer que fosse
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